A menina recebeu a boneca em uma caixa colorida, decorada pelas mãos do mesmo artesão que havia pregado os cabelos no brinquedo rechonchudo, e que estava diante dela.
Lourdes se espantou com a semelhança entre as crianças do vilarejo e a boneca. Depois, até rezou um Pai-Nosso ao perceber a textura da pele da mãozinha que segurava. Contraste para seus dedos cheios de calos.
Sua mãe deu tapinhas em suas costas, contente com o intermédio entre a filha e o pretendente fazedor de bonecas.
Dona Quitéria pensava nos benefícios do casamento: casa, comida, uma chance digna para além da cidade esquecida pelo tempo.
Lourdes, por outro lado, pensava em quanto ele se parecia com o avô, não só em trejeitos, mas também em idade. Precisou esconder o gosto do nojo, amargo, no âmago de seu estômago. Agradeceu o presente e fugiu para o quarto.
Mamãe entrou tempo depois com a cinta em mãos e um aviso.
Deu-lhe duas cintadas pela falta de educação e uma terceira ficou por conta dela, sem motivo aparente, pois mamãe gostava de descontar em Lourdes a própria infelicidade.
Depois, foi a vez do aviso.
Disse a filha que o casamento aconteceria em breve, assim que o rio voltasse a encher. Haviam, ela e o noivo, até mesmo decidido quais salmos e versos bíblicos cantariam em conluio.
Lourdes não pode fazer nada, apenas curtir as dores de seus hematomas e esperar pelo fim de sua sina. Agarrou-se a boneca, apostando que aquela seria seu último vislumbre da juventude, então faria dela um símbolo.
Era três da madrugada, embora não soubessem, quando ouviram rumores vindo da porta de entrada.
Dona Quitéria se levantou depressa, armada com a velha espingarda do ex-marido, que havia falecido, por ironia do destino, caçando cães do mato na região.
Tirou Lourdes da cama — a menina dormia com a boneca apertada entre os seios em formação — e a empurrou em direção à cozinha. Mandou que a filha segurasse uma faca, mas que se escondesse para além da vista.
Bateram novamente.
— Quem diacho tá aí? — questionou a mãe.
Os murmúrios do lado de fora insistiram.
Dona Quitéria não teve outra solução, se não, abrir a porta.
O horror encheu-lhe o peito, na mesma intensidade que esvaziou seus outros sentidos, fazendo com que ela ficasse parada diante da entrada.
Uma moça maltrapilha, um tantinho mais velha que Lourdes, esperava do lado de fora. Tinha o rosto carcomido pelos vermes da terra. Os olhos, inchados e purulentos, por baixo de uma moldura de cabelos de um pretume pálido e esquálido.
A barriga avantajada, fruto de uma recente gestação, ainda estava inchada, visível pelos rasgos no vestido. O viço comum de mulheres pretas como ela e Maria Quitéria indicavam ter sido uma mulher bonita quando em vida.
A criatura trespassou Dona Quitéria, ignorando-a completamente. Caminhou até a cozinha.
Encontrou Lourdes ligeiramente assustada, entre um armário e a pia, com boneca e a faca em mãos.
Chorou e gemeu.
De seus olhos verteram o chorume da morte e de seus lábios a terra escura e pútrida. Falou alguma coisa numa língua esquisita, que talvez só os renegados pela terra entenderiam, mas, que por um milagre, Lourdes compreendeu.
A menina entregou a boneca nas mãos da mulher e pediu para que ela fosse embora.
Agradecida por ter a filha em mãos, a criatura cambaleou pelo mesmo caminho, mas parou diante da mãe viva, ainda perplexa, que por sua vez prendeu a respiração ao sentir o perfume doce dos mortos.
A morta reuniu, então, toda a força que restava para falar o idioma dos vivos.
— Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras.
Dona Quitéria entendeu o recado, fechando a porta atrás de si assim que a morta caminhou para o quintal.
Lourdes nunca se casou com seu pretendente, tão pouco o viu depois daquela noite.
Dizem que ele foi encontrado em sua própria cama, morto com um tiro de espingarda.
Espalhados pela sua casa, equipamentos cirúrgicos, além de uma série de produtos essenciais na criação de adornos com animais empalhados. No entanto, o que mais chamou atenção foi sua excêntrica coleção de bonecas. Moças em diferentes idades.
Este conto é um texto de Ode às Loucas, um livro de contos ainda não publicado, reunindo histórias sobre mulheres, o sagrado e o profano. Rute Ferreira costuma dizer que preciso fazer um romance sair daqui. Espero que gostem.



Maravilhoso! 👏👏👏